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15/03/2026

Barras

A sirene escolar ecoou por todo quarteirão, Ryarzo observou um mar de crianças saírem pelos portões de ferro; algumas iam de encontro aos seus pais, outras pegavam a Van escolar, e alguns grupos atravessavam a faixa e corriam para o parquinho.

Ele não estava exatamente escondido, apenas debaixo da sombra de algumas árvores, assustando algumas crianças que não esperavam um par de olhos as olhando de cima do trepa-trepa, não de propósito, claro. Todas sabiam que quando ele estava lá, era melhor brincar em qualquer outro brinquedo, estariam bem se não olhassem para ele, ou chegassem muito perto. Ryarzo não gostava disso, se sentia como um adulto cruel, mas aquilo tudo era necessário.

Era algo já internalizado entre as crianças, se Ryarzo estava no parquinho um homem cheirando a bebida apareceria, e todas estariam seguras se fingissem não saber da existência do garotinho isolado. Ninguém sabia o nome do homem ou do menino, mas sabiam que se eles se encontrassem coisas ruins aconteciam, e nenhuma criança quer problemas com os adultos.

O homem apareceu, as crianças repetiram em uníssono não conhecer ninguém com as características descritas por ele, o homem foi embora, Ryarzo desceu do trepa-trepa e saiu sozinho do parquinho. Tudo saiu como esperado, e todos estavam bem agora. Mas Ryarzo sabia que não poderia fugir para sempre.

Amanhã, naquele mesmo horário, Ryarzo pegaria um ônibus na rodoviária e desceria em Belo Horizonte, onde aquele homem nunca o encontraria. Sem fugir, sem roubar, sem se esconder, sem sofrer. Apenas ele e a rua.

Daria tudo certo, se Ryarzo não tivesse esquecido a passagem no quarto do bar.

Ele precisava voltar, pegar a passagem, e sair completamente despercebido, dessa vez não podia falhar, era sua última chance de fugir.

Mas ele não tinha como prever que Wagner entraria em seu quarto às 2:24, com uma garrafa na mão e o braço de uma garotinha desacordada na outra.

Tudo que Ryarzo podia fazer era correr, o mais rápido que podia, tentando desviar por entre vielas e becos do Kwid desgovernado. Seus pés o levaram de volta ao parquinho, mas dessa vez não havia ninguém para o ajudar a se esconder, ele teve que pular o muro da escola do ensino fundamental e torcer para que Wagner não bata com tudo no portão ao seu lado.

Ele ouviu os pneus se arrastando pelo asfalto, e pulou de volta para a rua, pronto para ir para a rodoviária esperar seu ônibus. Se ele tivesse olhado para os dois lado da rua veria o Kwid, e desviaria de Wagner. Seus cabelos cumpridos foram agarrados, alguns fios arrancados, e por eles foi suspenso até a altura daquele homem enfurecido. Mas Ryarzo também estava farto daquilo, usou toda a força que tinha para chutar o olho esquerdo de Wagner, que caiu ajoelhado e gritando de dor.

Ryarzo correu até o trepa-trepa, se conseguisse subir até o topo, e alcançar a mochila pendurada na árvore, conseguiria pegar a faca guardada nela, e poria um fim naquilo de uma vez por todas.

Já tinha subido aquelas barras milhares de vezes, mas em nenhuma dessas vezes uma criança tinha vomitado nas barras horas antes. O chinelo do garotinho escorregou na última barra, sua última visão antes de bater a cabeça foi a folhagem verde da árvore tremulando com o vento.

A sirene escolar ecoou por todo quarteirão, e um mar de crianças saíram pelos portões de ferro; algumas foram de encontro aos seus pais, outras pegaram a Van escolar, e alguns grupos atravessaram a faixa e correram para o parquinho.

Naquela manhã um ônibus saiu para Belo Horizonte, e um corpo foi tirado sem vida de um trepa trepa, que agora era usado pelos estudantes agitados. Todos estavam tão inertes em aproveitar seus minutos de diversão, que só perceberam o sangue em suas mãos e pés quando um deles esbarrou na mão de um garoto com a cabeça ensanguentada. Não importava o quanto chorassem e gritassem, nenhum adulto conseguiu identificar o tal garoto de quem as crianças fugiam, e um novo pacto teve que ser estabelecido entra as crianças.

Todos ficariam bem se não brincassem no trepa-trepa, se não incomodassem Ryarzo em seu trono de metal.




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